29 agosto 2011

"Rebeldia de Mercado"


Infelizmente, há bastante tempo que o Movimento Punk perdeu forças. Entretanto ainda vigoram bandas das antigas e também indivíduos das antigas que não deixam a "chama" apagar. Também surgem bandas novas com ideais legais e um som de qualidade. Ainda enxergamos, nas ruas, alguns moicanos (não que o visual seja prioridade). São coisas assim que nos mantém acreditando.

Não é difícil ouvir: "Ah, o Punk morreu!". Essa frase já me causou bastantes discussões. Inacreditavelmente também se encontram Punx que afirmam que o movimento morreu, a Banda Crass, por exemplo:
Punk is Dead - Crass
Yes that's right, punk is dead,
It's just another cheap product for the consumers head.
Bubblegum rock on plastic transistors,
Schoolboy sedition backed by big time promoters.
Cbs promote the clash,
But it ain't for revolution, it's just for cash.
Punk became a fashion just like hippie used to be
And it ain't got a thing to do with you or me.
É, é triste. Mas mesmo assim, continuamos na luta. Além do mais esse não é o assunto do post.

Já faz algum tempo, estava conversando com um amigo e ele me contou sobre um seriado DE MERDA que começou a ser transmitido em um canal da TV à cabo. Fui então conferir, algo que me arrependi amargamente. Me deparei com isso:

Minha reação foi um amálgama de ânsia de vômito com uma vontade profunda a cabeça contra a parede até abrir um rasgo... na parede, ainda mais quando li um pouco sobre o LIXO TELEVISIONADO que nomearam de seriado.
A "Rebeldia de Mercado" nunca me atingiu tanto. Mas isso supera todos os Sellouts, supera qualquer mimetismo EMO.

Paremos para analisar. Os Punx nunca foram bem vistos. Nunca nos apoiaram, e, de repente, passam a USAR nossa ideologia para ganhar status de roqueiro e pagar de malvadão da rua, e agora usam a imagem do movimento (por que não têm o menor conhecimento do que se trata o Punk) para fazer comédia, ridicularizando os "veteranos" remanescentes do Punk.

Era só isso, só queria expressar a minha vontade de queimar a Disneylândia.
Por fim: GREEN DAY NÃO É PUNK, AVRIL LAVIGNE NÃO É PUNK, BLINK 182 NÃO É PUNK.
Esses mela cuecas não prestam. TENHO DITO.


Letra real, Punk Rock de verdade!

25 agosto 2011

Greves, professores mercenários, alunos egoístas e pais escrotos

Não tenho postado nada, pois ando ocupado com as aulas (algo que valorizo bastante, pois como sempre costumei ouvir: “Conhecimento é a única coisa que não podem tirar de você”) e é sobre isso que falarei nesse post, a importância dada pelos ignóbeis à educação.

A rede de ensino em que eu estudo é federal e está em greve, mas a situação no Instituto daqui é ridícula. Meia dúzia de professores parou, fizeram faixas porcas, e tentam conquistar a simpatia de alguns alunos distribuindo narizes de palhaço e demonstrando que entendem o quanto é difícil ser aluno e blá blá blá. Ainda assim estão agindo, mesmo sendo só alguns que realmente lutam por condições melhores para desempenhar suas profissões, enquanto que a maioria, composta por PAUS NO CU, só quer mais dinheiro e está pouco se fodendo se há recursos para educar melhor.

Também estão presentes os alunos IMBECIS que ficam alegres com a greve e os poucos alunos que estão descontentes; porém entre eles existem alguns que de forma egoísta criticam todos os professores, sem se ligar que uma parte deles quer algo que é de interesse geral.

A greve é uma forma um tanto quanto impactante que servidores públicos usam para pressionar o governo, para que lhes concedam as condições necessárias podendo assim exercer seu papel de forma digna, e isso muitas vezes (sempre) envolve salário, mostrando o precário interesse pelo ensino. O pior é que algumas greves acabam em NADA também mostrando a importância que o estado dá para os estudantes.


Mas, definitivamente, o pior de tudo, são os pais RIDÍCULOS que se revoltam erroneamente contra os professores, os chamando de vagabundos, exigindo ter para onde mandar suas incomodativas crias, pois precisam trabalhar (mostrando mais uma vez como a PORCARIA do povo brasileiro trata a educação). E os filhos da puta não percebem que a porra dos impostos que eles pagam são (ou pelo menos deveriam ser) destinados à educação e não a um “deposito de filhos”.

Enfim, tomara que essa greve resulte em algo bom, e não só na reposição de aulas nas férias. Antes de ontem o SINASEFE foi convidado para uma assembléia. Vamos ver no que dá.

14 março 2011

"Sobre Vacas e Moedores"


"Um amigo tinha um sítio. Colocou nele uma vaca. A vaca lhe dava uma enorme despesa. Teve de construir um estábulo, além de comprar uma picadeira de cana para a ração.
As pessoas ajuizadas da família tentaram trazê-lo de volta à razão. 'Com as despesas todas que a vaca lhe dá, o leite dela é o mais caro da cidade! Seria mais prático comprar leite nos saquinhos plásticos...'. Mas ele confessava: 'Eles não me entendem... Eu não tenho a vaca do leite. Eu tenho a cava porque gosto de ficar olhando para ela, aqueles olhos tão mansos, aquele ar tão plácido, tão diferente das pessoas com quem lido... Tenho a vaca porque ela me faz ficar tranquilo...' Meu amigo sabia aquilo que seus práticos familiares não sabiam: que uma vaca além de ser um objeto com vantagens práticas e econômicas, é também um objeto onírico. As vacas nos fazem sonhar...

Havia na casa do meu avô, um quadro bucólico. Era um campo com grandes paineiras floridas ao fundo e algumas vacas que mansamente pastavam. Eu, menino, gostava de ficar ali, olhando o quadro. E me imaginava assentado à sombra das paineiras, gozando da felicidade de ter como companhia apenas vacas que nada pediam de mim.

Não existe nelas nenhuma ética, nenhum comando. Nada querem fazer, além de comer o capim verde. Já os cavalos provocam sonhos diferentes: criaturas selvagens cheias de uma beleza energética, relincham num desafio para as corridas desabaladas e o rigoroso bater das patas no chão. O relinchar de um cavalo é um grito de guerra. Mas o mugido de uma vaca, apito rouco de um navio vagaroso, soa como uma oração... 'de profundis...' Acho que foi por isso, por essa sabedoria filosófica, que as vacas nos fazem sonhar, que os hindus as elegeram como seres sagrados.
As vacas parecem estar em paz com a vida - muito embora seu destino possa ser trágico. Trágico, não por causa delas, mas por causa dos homens, que pouco se comovem com seus olhos mansos. Cecília Meireles colocou num verso esta condição bovina, como paradigma da condição humano: 'Sede assim - qualquer coisa serena, isenta, fiel, igual ao boi que vai com inocência para a morte'. Pois bois e vacas, esvaziadas, de suas belas e inúteis funções oníricas, pelos homens práticos, estão destinados ao corte.

Passei pelo açougue, lugar onde se realiza o destino das vacas. um açougue é o lugar onde a mansidão bovina é transformada em utilidade comercial. Para serem úteis elas têm de morrer. Sobre o balcão, um moderníssimo moedor de carne. O açougueiro, afiando sem parar a faca, corta as carnes que, um dia, pastaram à sombra das paineiras. Por um buraco, à direita, entram os pedaços de carne. Ligadas à máquina, giram as engrenagens invisíveis que trituram a carne. Operação necessária para que a vaca se torne útil ao homem.
Em sua placidez filosófica, a vaca não é útil à ninguém, apenas a ela mesma. É preciso que a máquina a transforme em outra coisa pára ser útil ao homem. Na outra extremidade do moedor elétrico há um disco cheio de orifícios. Por ele esguicha a carne moída, que vai caindo em uma bandeja. Terminada a operação, o açougueiro toma um punhado de carne o coloca cobre um pedaço de plástico, e, por uma manipulação destra, enrola-a sob a forma de rolo, como se fosse um salame. E assim vai repetindo. Sobre o balcão os rolo vão se acumulando, todo iguais, um ao lado do outro.

Tentei conversar com os rolos de carne moída. Perguntei-lhes se sentiam saudades dos pastos, dos riachos, das paineiras floridas. Mas parece que haviam se esquecido de tudo. 'Pastos, riachos, paineiras - o que é isso? Parece que a máquina de moer carne tem o poder de produzir amnésia. Perguntei-lhes então sobre os seus sonhos. E me responderam: hamburgueres, Mc Donald's, Bob's, churrascos... Só sabiam falar da sua utilidade social. E até falavam em inglês...

Meditei sobre o destino das vacas e fiquei poeta. A gente fica poeta quando olha para uma coisa e vê outra. É isso que tem o nome de metáfora.

Olhei para a carne cortada, o moedor, os rolinhos e vi outra coisa: escolas! Assim são as escolas... As crianças são seres oníricos, seus pensamentos têm asas. Sonham sonhos de alegria. Querem brincar. Como as vacas de olhos mansos são belas, mas inúteis. E a sociedade não tolera
inutilidade. Tudo tem de ser transformado em lucro. Como as vacas, elas têm de passar pelo moedor de carne. Pelos discos furados, as redes curriculares, seus corpos e pensamentos vão passando. Todas são transformadas numa pasta homogênea. Estão preparadas para se tornarem socialmente úteis. E o ritual dos rolos em plásticos? Formatura. Pois a formatura é isto: quando todos ficamos iguais, moldados pela mesma forma.

Hoje, quando escrevo, os jovens estão indo para os vestibulares. O moedor foi ligado, Dentro de alguns anos estarão formados. Serão profissionais. E o que é um profissional se não um corpo que sonhava e que foi transformado em ferramenta?As ferramentas são úteis. Necessárias. Mas - que pena - não sabem sonhar..."



Esse texto - de Rubem Alves - me foi passado durante uma aula de sociologia enquanto estudávamos sobre a formação de culturas presentes na sociedade, pela professora Eliane Dutra de Armas. O mesmo, como a própria professora disse, não tem nenhuma intenção de fazer apologia ao vegetarianismo, mas de analisar e comparar o processo que as crianças passam com o que as vacas passam.

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